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“A
dor é muito particular, íntima e, para mim,
incurável. Não vou superar, já estou velha,
cansada. Vou apenas suportar enquanto der,
lutando para preservar a minha fé, manter o meu
coração em Cristo, desejando que Deus permita
que meu tempo aqui na Terra não seja tão longo.”
Com esta declaração, um tanto forte e recheada
de emoção, Yvelise de Oliveira, dona do grupo MK
de Comunicação, encerrou o artigo: “A morte
entrou pela porta e sentou na minha sala”. Foi à
primeira declaração pública após a morte do
filho, Benoni Assis Vieira de Oliveira, de 45
anos, e do genro Sérgio Ribeiro de Menezes de
44, que era casado com a cantora Marina de
Oliveira, após acidente de Ultraleve no dia 07
de fevereiro, no Rio.
No texto, Yvelise fala do drama e como a morte
entrou pela porta de sua casa e se instalou em
seu sofá. Ela relatou que os primeiros indícios
que algo não estava bem após a morte de seu
jardim e de sua sogra. Mais: ela lembra que o
filho, Benoni, no dia de sua morte, a convidou
para voar durante o almoço. Ela não foi, mas
Sérgio Ribeiro foi em seu lugar para fotografar
as belezas do Rio.
No final do artigo a dona do grupo MK relembrou
a dor de ver o corpo de seu filho sendo retirado
da lagoa.
Leia o artigo na íntegra:
A morte entrou pela porta e sentou na minha sala
Dona Morte entrou pela porta da minha casa e se
instalou confortavelmente em algum dos meus
sofás.
“Essa senhora sinistra” começou com o meu
jardim.
A casa foi feita para o jardim. Toda cercada de
flores coloridas, as singelas “Marias sem
vergonha” abraçavam tudo como em um buquê. Por
dentro da casa e pelo lado de fora junto dos
muros o colorido das flores, na rua,
aconchegavam a frondosa amendoeira em um abraço
carinhoso em frente à casa.
Mas as plantas foram morrendo sem motivo e o
jardim todo florido foi ficando sem vida e sem
cor…
Se foi o sol, o calor, muita água, o jardineiro
mesmo não sabia dizer… Mas lutei. Comprei terra
adubada e centenas de mudas de “Maria sem
vergonha”, lilases, grama inglesa. Enfim,
plantei tudo de novo, mas o jardim nunca mais
foi o mesmo. Minhas orquídeas morreram aos
montes no orquidário branco que fiz para
cuidá-las. Amo plantas.
Indo mais fundo, Dona Morte matou minha gata
Sara. A porta foi esquecida aberta e ela pulou
para a casa da vizinha – morreu na hora. Os
cachorros quebraram seu frágil pescocinho.
Lamentei por dias sua morte e chorei sentida a
sua falta.
Mas a gente não sabe o futuro e esperei sempre
que tudo fosse melhorar.
Sem doença, sem nada, a mãe do meu marido, D.
Margarida, morreu. Uma morte serena. Dormiu e
não acordou. Sua jornada tinha acabado.
Foi uma tristeza grande. O consolo ficou apenas
na suavidade com que Dona Morte agiu.
Assim que a gente começa a respirar mais
aliviado, o consolo vem vindo, porque minha
sogra viveu 91 anos, jovial e saudável.
Nesse ano que passou nós a vencemos quando meu
marido teve um câncer e pensei que iria
perdê-lo. Mas a mesma fé que o curou
completamente não consegui tirar o medo que veio
morar dentro de mim.
Logo eu, tão segura, tão confiante, tão cheia de
planos, passei a temer o confronto com ela: a
“Sinistra Senhora”.
Depois passei a desconsiderá-la: “Não. Já perdi
gente demais, um filho pequeno , minha mãe, meu
pai, minha amiga querida. Perdas que fazem parte
da vida quando se é jovem.”
Mas Dona Morte instalou-se. Minha casa grande,
branca e bela tornou-se sua morada predileta.
Em um sábado de céu azul e o sol brilhando, um
dia tipicamente carioca, a família se reuniu
para almoçar. Na mesa, sorriso e comida farta,
muito papo jogado fora.
Benoni, meu filho, tinha agora um novo hobby:
voar de ultraleve, um avião monomotor.
Todos já tinham voado com ele: meus netos, sua
esposa, meu marido e as centenas de amigos que
ele, com seu jeito de menino grande e coração
doce, conquistava.
Nesse sábado, ele me convidou animado: “Vamos,
mãe, vamos voar, é lindo. A gente se sente um
pássaro”. Emocionava a forma como ele descrevia
o vôo, uma aventura única, um prazer
indescritível. Ver o Rio assim, de cima, sua
cidade que ele tanto amava.
Vou enjoar, respondi, acabei de almoçar. Vou
amanhã, eu prometo.
Meu genro, um jovem homem amável e tranquilo,
nada dado a aventuras perigosas disse: “Eu vou.
Vou fotografar todo o Rio, o Cristo. O dia está
claro como cristal”.
Meu genro era um grande fotógrafo, tinha uma
visão artística peculiar de luz e sombra.
Assim os dois saíram rindo felizes. O Sérgio,
meu genro, com sua máquina super Nikon pendendo
do pescoço. Alto, magro e sorridente como seu
cunhado. Eram muito diferentes, mas tinham em
comum a camaradagem.
Nesse dia claro e cheio de sol, Dona Morte
resolveu dar um golpe fatal.
Enquanto o dia ia findando e o sol tornava o céu
rosa em tons de púrpura e lilás, meu filho foi
aterrizar seu avião, pequeno, leve como um
brinquedo mortal.
O vento, sim, o vento que ele tanto amava virou
o avião. Caíram na lagoa e morreram os dois na
mesma hora.
Tantos planos, tantos sonhos, tanta juventude
assim cortada, desperdiçada.
Morto meu filho, os bombeiros o tiraram da
lagoa, o coloquei no meu colo. Pareceu dormir.
Tão lindo.
Um garrote me apertou a alma. Uma dor assim não
se limita, não se escreve, não se consegue
sabotar.
Perplexa, vi que era verdade… Meu filho amado,
meu filho morto, em meus braços eu embalei.
A dor é muito particular, íntima e, para mim,
incurável. Não vou superar, já estou velha,
cansada. Vou apenas suportar enquanto der,
lutando para preservar a minha fé, manter o meu
coração em Cristo, desejando que Deus permita
que meu tempo aqui na Terra não seja tão longo.
Como não pude te dizer, meu Deus: Ainda não,
ainda não. E rogar: Por favor, não o deixe ir
agora. Não me lance nessa noite tenebrosa.
Yvelise de Oliveira
Fonte: Creio.
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