|
Não
é exagero afirmar que a cruz é o alicerce do
cristianismo. Instrumento dantesco na mão dos
romanos, utilizado como pena capital contra
escravos e revoltosos, ela ganhou contornos de
altruísmo por volta das 15h da Sexta-feira da
Paixão do ano 30, quando Jesus de Nazaré teria
morrido pendurado em duas estacas de oliveiras
nodosas em forma de “t”.
Seus discípulos não estariam ao pé do calvário.
Mas as primeiras linhas escritas pelos quatro
evangelistas para perpetuar os ensinamentos
desse homem que cresceu na Galileia relatavam
justamente os episódios de sua Paixão e morte.
Não é de se estranhar, portanto, que, quase dois
mil anos depois, a iconografia símbolo do
cristianismo esteja apoiada na figura de um
Jesus magro e frágil, com barba, pouca roupa,
coroa de espinhos e preso a uma cruz pelas
palmas das mãos e peitos dos pés. Mas essa
imagem de Cristo no ato de seu suplício estaria
fiel à história? “Não”, opina o especialista em
arqueologia pela Universidade Hebraica de
Jerusalém Rodrigo Pereira da Silva. “Acredito na
hipótese de que Jesus tenha sido crucificado
sentado, apoiado em uma madeira que existia na
cruz abaixo de seu quadril, com as pernas
dobradas para a direita, nu e sem a coroa de
espinhos”, diz.
Professor do Centro Universitário Adventista de
São Paulo (Unasp), Silva faz essa afirmação
baseado, principalmente, em pistas deixadas
pelos textos bíblicos e pela literatura romana.
O acesso a especulações sobre a real posição de
Jesus na cruz (leia quadro) tem sido cada vez
mais possível graças a algumas obras escritas
por especialistas em religião do Oriente Médio.
Lançadas recentemente, elas trazem a discussão
em torno dessa questão, difundida no meio
acadêmico, para perto do grande público.
Em “Os Últimos Dias de Jesus – a Evidência
Arqueológica” (Ed. Landscape), o arqueólogo
Shimon Gibson, da Universidade da Carolina do
Norte (EUA), escreve que, “para prolongar a
agonia e o momento da morte, os romanos
posicionavam a vítima em uma espécie de assento
de madeira, ou suporte de forquilha, na metade
inferior da cruz”. Havia um motivo. Sem essa
espécie de apoio, o corpo tombaria e a morte por
asfixia ocorreria mais rapidamente. A intenção,
portanto, era dar à vítima a possibilidade de
ela respirar para que tivesse uma sobrevida e
sofresse por mais tempo antes da morte.
“A pessoa morre mais lentamente por asfixia
dolorosa, porque os músculos do diafragma vão
parando de funcionar até que ela deixe de
respirar”, explica John Dominic Crossan,
professor de estudos bíblicos da Universidade
DePaul (EUA), no livro “Em Busca de Jesus” (Ed.
Paulinas). Esse tipo de assento é descrito,
ainda, pelo historiador espanhol Joaquín
Gonzalez Echegaray, do Instituto Bíblico e
Arqueológico de Jerusalém, em “Arqueología y
Evangelios” (Ed. Verbo Divino), como uma espécie
de “conforto” com objetivo cruel.
Detalhes de como os braços e as pernas de Cristo
foram posicionados não são fornecidos pelos
evangelistas. “Os soldados romanos, que teriam o
que falar, não tinham interesse. E os
discípulos, que deveriam escrever, não tinham os
dados”, diz Pedro Lima Vasconcellos, professor
de pós-graduação de ciências da religião da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
As pistas, então, são fornecidas pela ciência.
Em 1968, uma ossada de um homem que viveu no
século I foi encontrada em Jerusalém. Sua
cartilagem próxima ao calcanhar direito
apresentava um prego de ferro de 11,5 cm de
comprimento preso a uma madeira. É a única
vítima de crucificação descoberta por
arqueólogos até hoje. “Se trabalharmos com a
hipótese de que um único prego estaria
atravessando os dois pés, pela forma como a
ossada foi encontrada, as pernas estariam
flexionadas para a direita”, diz Silva, da Unasp.
Segundo o historiador André Chevitarese, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, o que há
de histórico no relato da Paixão de Cristo são a
prisão e a crucificação. “O que ocorreu no meio
e depois são relatos teológicos que passam pelo
exercício da fé”, diz ele. “Se ele morreu
pregado ou amarrado, estendido ou sentado são
detalhes para aumentar ou diminuir a
dramaticidade.”
Milhares de crucificações foram patrocinadas
pelos romanos. A de Jesus foi a única que se
perpetuou. Como pode um herói morrer de uma
forma tão humilhante e seu nome viajar por
gerações? Para a ciência, ele ainda é um
quebra-cabeça com muitas peças desaparecidas.
Mas não há mistério em um ponto: ele deu novo
significado à cruz, hoje objeto de salvação e
conforto espiritual, não de tormento.
Cristo na cruz
Com base em descobertas arqueológicas, escritos
dos evangelistas e na literatura romana,
especialistas sugerem como Jesus teria passado
as últimas três horas de vida na Terra.

Fonte: Creio.
Deixe seu
comentário em nosso mural Clicando aqui.
|