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19/08/2004

Político evangélico deve ser um evangélico na política


À medida que cresce a presença evangélica na sociedade e na política brasileira, igrejas e organismos dessa família confessional emitem cartilhas, cartas pastorais e decálogos arrolando diretrizes dirigidas a eleitores e candidatos com vistas às eleições municipais de 3 de outubro.

A Aliança Evangélica Brasileira (AEvB) preparou o "Decálogo do voto ético", com a intenção de contribuir ao processo eleitoral, "no qual o voto evangélico não seja manipulado, como muitas vezes já o foi". O décimo "mandamento" do decálogo enfatiza que "nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual".

O Decálogo alerta, no quinto item, que "a diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade".

A AEvB enfatiza que "nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico". E sustenta que o político de fé evangélica tem que ser um evangélico na política e "não apenas um ‘despachante’ de igrejas".

O pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Walter Altmann, indaga, em carta pastoral dirigida às congregações e departamentos da igreja, sobre a responsabilidade da comunidade cristã nas eleições e nos processos políticos. "Pelo amor, as pessoas cristãs são servidoras umas das outras (Gálatas 5.13), e esse servir inclui a política", responde.

A carta pastoral da IECLB lembra que o reformador Martim Lutero colocava o Evangelho acima de todas as coisas e que se pode entender, a partir de suas colocações, a relação entre fé e política como uma prática da soberania de Deus, Senhor tanto da Igreja como do Estado.

"Na Igreja alimentamos nossa fé pela palavra e pelos sacramentos. Em nossa vida pública exercitamos a justiça e o cuidado para com os mais fracos como propósito divino contra a tentação das injustiças e das exclusões", diz a carta pastoral.

Eleições, define o pastor presidente, "são um importante instrumento para a construção de uma sociedade livre e democrática, com um pacto social consistente, que promova a liberdade, a justiça e a paz". Elas estão implícitas, de certa forma, na compreensão evangélico-luterana de comunidade como "sacerdócio de todas as pessoas" ou como corpo de Cristo, pilares da teologia luterana.

Altmann destaca, na carta, que direitos humanos e cidadania são elementos necessários para a construção democrática de uma nova sociedade. Cidadania, frisa, requer ações como luta contra a miséria, a fome, a doença e o desemprego; exige esforços para extirpar violência e corrupção, desigualdades sociais e destruição do meio ambiente; demanda empenho em favor de educação e moradia para todos, de reforma agrária, de libertação do trabalho escravo e de um novo destino para as crianças de rua.

A carta pastoral da IECLB enfatiza que a atuação do cristão na política e na sociedade não termina com o voto, pelo contrário, "é com ele que começa e se aprofunda a nossa responsabilidade pública como pessoas cristãs".

O Sínodo Espírito Santo a Belém, da IECLB, lembra, em material que preparou para suas comunidades com vistas às eleições, que "não existe Igreja apolítica, no sentido de que sua pregação só se restrinja a uma fé que se alicerça em experiências interiores individuais e /ou individualizantes".

Alerta, contudo, que a Igreja, na função de guardiã da sociedade e de sentinela da política, "não pode assumir bandeira politico-partidária". O seu papel, aponta, é inequívoco: "animar as autoridades, quando empenhadas pelo bem comum; adverti-las, questioná-las e contestá-las, cobrando soluções, quando não possibilitam ou desvirtuam convivência digna no Estado e na sociedade".

O documento "Luteranos e sua postura política", do Sínodo Espírito Santo a Belém da IECLB, também dá diretrizes às comunidades no que diz respeito à aceitação de "ajuda" dos candidatos, principalmente para festas comunitárias.

"Essa ‘ajuda’ deve ser repudiada por todos os presbitérios, pois se trata de atitude e ato que visa a obtenção de votos. Os luteranos não vendem o voto deles, e, portanto, também não se prestam a receber tais tipos de ‘ajuda’. Pelo contrário, devem recusá-la com o argumento de que o poder econômico não deve ser usado para obter benefícios pessoais ou de determinados grupos", diz o texto.

Dos cerca de 120 milhões de eleitores há um expressivo número de "votos evangélicos", responsáveis por algo em torno de 20 milhões de votos. O dado torna-os um segmento cobiçado do colégio eleitoral, "criando o risco de alianças comprometedoras e prejudiciais para o futuro e a credibilidade de nossas instituições sociais, reduzindo o nosso voto a interesses particulares e em benefício de projetos institucionais e paroquiais", admoesta a carta pastoral da IECLB.

Voltado para um outro setor, o do mundo das companhias, o Instituto Ethos reeditou a cartilha "A responsabilidade social das empresas no processo eleitoral", com uma tiragem de 25 mil exemplares. O texto enfatiza que o financiamento deve estar associado à política de responsabilidade social da empresa, sob o risco dela macular a sua imagem se não o fizer.

A cartilha, informa a agência Adital, defende que "o financiamento de campanha deve ser compreendido como uma manifestação de cidadania empresarial, e não como um negócio". Ela condena a prática comum entre grandes financiadores, de fazer "doações para candidatos com propostas antagônicas, na esperança de manter boas relações com qualquer um que seja eleitor".

O Instituto Ethos recomenda que as empresas divulguem, ainda durante a campanha, os candidatos que estão apoiando e quanto estão doando para a campanha, e que promovam, em seu ambiente de trabalho, o debate político entre os funcionários, apresentando, por exemplo, os programas dos principais candidatos.

As informações são da (ALC)
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